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Destaques

China cria mecanismos financeiros na África para não depender de dólar

Redação SeD
Última atualização: 6 de julho de 2026 03:52
Redação SeD
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A China vem ampliando a infraestrutura financeira na África para não depender do dólar, o que permite comercializar bens e serviços por meio das moedas africanas e da chinesa, o yuan. 

Apesar das mudanças, o uso yuan (ou renminbi) ainda é minoritário no continente e a chamada desdolarização segue fora do horizonte, mesmo para as autoridades de Pequim.

No fim de junho, o Banco Central da China autorizou o pagamento com yuan diretamente no banco Standard Bank, maior grupo bancário do continente com sede na África do Sul, em uma parceria com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC).

“[A parceria] nos coloca em uma posição única para lidar com renminbi chinês (RMB), permitindo que as empresas façam e recebam pagamentos em RMB para liquidações comerciais, viabilizando o comércio entre a África e a China”, diz comunicado do Standard Bank, presente em 21 países africanos.

Atualmente, a China é a principal parceira comercial da África. Entre 2000 e 2024, o crescimento médio do comércio entre o continente e a China foi de 14%, ao ano, segundo a Administração Geral de Alfândegas (GAC) da China.

Em 1º de maio, a China decidiu isentar taxas de importações de produtos africanos, o que deve reforçar o comércio entre o gigante asiático e a África.

Yuan ainda é minoritário

O analista geopolítico Marco Fernandes, do Conselho Popular do Brics, disse que o avanço do yuan na África ainda é tímido, mas destacou que a China vem construindo uma infraestrutura capaz de comercializar no continente sem precisar usar o dólar.

“Isso é um começo. A China tem feito uma série de iniciativas, como essas, no mundo inteiro para poder comercializar sem o dólar. Mas o montante negociado em yuan é ainda irrelevante considerando o tamanho da economia global. É como se eles estivessem construindo os trilhos para o trem bala chinês passar no futuro”, comentou.

O analista do portal Brasil de Fato acrescentou que as commodities de energia e alimentos, em sua maioria, ainda são negociadas em dólares no mundo todo.

“O yuan é hoje a quinta moeda de comércio mundial com cerca de 8,5% das transações globais, ou seja, muito pouco ainda. Mas está crescendo se você comparar com três, cinco ou dez anos atrás”, disse Marco Fernandes.

A hegemonia do dólar

Uma das agendas do Brics, grupos de países do Sul Global que inclui Brasil, China, Índia, África do Sul, entre outros, tem sido a “desdolarização” da economia mundial uma vez que o uso do dólar como moeda do mercado internacional concede vantagens econômicas e políticas aos Estados Unidos (EUA).

A agenda de “desdolarização” da economia mundial é, por sua vez, atacada pelo presidente Donald Trump, que promete lutar para manter a hegemonia da moeda dos EUA no mundo.

China hesita em impulsionar yuan

O também editor da revista Wenhua Zongheng International, Marco Fernandes, destaca, por outro lado, que a China não tem interesse em uma desdolarização imediata, entre outros motivos, por ter muitas reservas ainda em dólar. Além disso, Pequim tenta manter o valor da sua moeda para preservar a competitividade das exportações chinesas.

Outro problema é que a China evita abrir sua conta de capitais, medida apontada como necessária para internacionalização do yuan, a fim de não expor o sistema financeiro chinês às turbulências da especulação global. A conta de capitais representa a movimentação de recursos que entram e saem do país.

“Uma rápida desvalorização do dólar significaria um prejuízo muito grande, tanto para o Estado chinês, quanto para as empresas chinesas. É preciso que esse processo de desdolarização seja lento, gradual e seguro”, afirmou Marco Fernandes.

Alternativa ao dólar

O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do banco do Brics, publicou, em junho deste ano, artigo com proposta para uma nova moeda de reserva para o comércio internacional.

Nogueira reconhece que a rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que envolve mais de 40 bancos centrais, amplia o papel da moeda chinesa nas operações de liquidação do comércio internacional.

Porém, o especialista destaca que a substituição do dólar pelo yuan ainda não interessa à economia chinesa e propõe, no lugar, a criação de uma moeda própria para o comércio global formada por uma “cesta” de moedas dos países do Sul Global.

“A criação de uma nova unidade de conta por um grupo de países do Brics (não necessariamente todos) e outras nações do Sul Global. Em determinado momento, a unidade de conta seria convertida em uma nova moeda, preservando os mesmos pesos”, escreveu Paulo Nogueira no Valdai Discussion Club, centro de estudos sediado em Moscou.

Para o analista geopolítico Marco Fernandes, a desdolarização da economia é importante para trazer mais justiça para economia mundial, além de servir para reduzir o poder político e econômico dos EUA que, por meio de sanções e embargos financeiros, conseguem submeter outras nações aos interesses de Washington.

“Por causa da hegemonia do dólar, toda vez que o Banco Central dos EUA sobe os juros, há uma desvalorização das moedas dos países pobres. Isso significa que as importações ficam mais caras. Trigo, arroz, milho e outros alimentos ficam mais caros. Uma pequena variação pode significar a fome, ou mesmo a morte, de milhares de pessoas”, concluiu.

Edição:
Aécio Amado
Agência Brasil

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