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Estudo mostra que 4 milhões de pessoas estão sob domínio armado no Rio

Redação SeD
Última atualização: 4 de dezembro de 2025 17:48
Redação SeD
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A Região Metropolitana do Rio de Janeiro tinha, em 2024, cerca de 4 milhões de pessoas vivendo sob controle ou influência de grupos armados, número que corresponde a 34,9% da população e 18,1% da superfície urbanizada habitada. 

Contents
Estratégias de poderDesigualdadesPolíticas públicas

Os dados são da nova edição do Mapa Histórico dos Grupos Armados, elaborado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado.

Entre 2007 e 2024, essa área cresceu 130,4% e a população atingida aumentou 59,4%.

Para os organizadores do estudo, é um sinal de que o domínio armado se organiza como parte estrutural da cidade e responde diretamente às fragilidades do Estado.

Os pesquisadores fazem a distinção entre “controle” – quando há extração de recursos, imposição de normas e sustentação pela força – e “influência”, situação de domínio parcial ou intermitente.

Em 2024, 14% da área urbanizada e 29,7% da população da região metropolitana viviam sob controle direto dos grupos armados. Outros 4,1% do território e 5,3% dos moradores estavam sob influência. O crescimento acumulado desde 2007 é de 98,4% em áreas controladas e 420,1% em áreas sob influência.

A série identifica dois grandes ciclos. A “grande expansão” entre 2016 e 2020 coincidiu com a falência fiscal do Estado, o desmonte das Unidade de Polícia Pacificadoras (UPPs) e a intervenção federal, quando a superfície dominada cresceu 31,6% (acréscimo de 105,36 km²).

A partir de 2020, o estudo registra “retração gradual”, puxada sobretudo pelo enfraquecimento das milícias depois de operações do Ministério Público (MP), disputas internas e perda de lideranças. O recuo, porém, é modesto: 7,1% de redução da superfície sob controle ou influência.

Estratégias de poder

O relatório também analisa duas estratégias distintas: a colonização, que é a ocupação de áreas ainda não dominadas, típica da expansão miliciana; e a conquista, caracterizada pela tomada violenta de territórios já controlados, dinâmica mais frequente entre facções.

Áreas de urbanização recente tendem a ser colonizadas. Regiões densas e consolidadas são locais de disputas.

“Essa é uma virada de chave na segurança pública do Rio. Durante quase duas décadas, a principal forma de os grupos armados crescerem foi a colonização. O Mapa mostra o aumento das disputas que resultam em ‘conquista’. O custo social dessa mudança de ‘colonizar’ para ‘conquistar’ é cobrado diretamente na rotina e na segurança de quem vive nessas áreas mais povoadas. A população passa a conviver com mais tiroteios, mais insegurança e mais medo”, diz a diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira.

Em 2024, as milícias lideravam em extensão territorial, com 49,4% da área sob domínio armado (201 km²), enquanto a facção criminosa Comando Vermelho (CV) dominava mais pessoas: 1,607 milhão, equivalente a 47,2% da população sob controle.

O CV também mantém hegemonia no Leste Fluminense (98%) e avança na capital, sobretudo após conquistas sobre territórios antes controlados pela facção Amigos dos Amigos (ADA), como Rocinha e Vidigal. A Baixada Fluminense registra crescimento acelerado simultâneo de milícias, CV e Terceiro Comando Puro (TCP), tornando-se área de disputa intensa.

A capital sintetiza a “cidade partida”: 31,6% da área urbanizada e 42,4% dos moradores estão sob controle ou influência, com predominância miliciana na Zona Oeste — que concentra cerca de 65% do território urbanizado da cidade. A partir de 2020, porém, o estudo registra perda de território pelas milícias na região, abrindo caminho para CV, TCP e remanescentes do ADA.

Na Zona Norte, milícias e CV alternaram posições na hegemonia territorial, com leve vantagem do CV em termos populacionais. Nos últimos anos, o TCP ganhou força na região e a região é uma das mais disputados da cidade.

“Conseguimos identificar padrões muito mais precisos, definidos e robustos de atuação de cada grupo armado e em diferentes circunscrições geográficas. Isto significa que podemos levantar hipóteses melhores sobre a expansão de cada grupo, no tempo e no espaço, também de como isso foi feito em cada momento e em cada lugar”, diz Daniel Hirata, coordenador do GENI/UFF.

 

 

Desigualdades

A desigualdade estrutural aparece como eixo do relatório. A renda média per capita em áreas controladas da região metropolitana é de R$ 1.121, contra R$ 1.658 nas áreas livres. A diferença é maior na capital: renda média de R$ 1.267 nas áreas controladas, contra R$ 3.521 nas áreas livres.

Na região metropolitana, a proporção de moradores não brancos (pretos, pardos e indígenas) chega a 69,1% nos territórios dominados, em comparação com 55,2% nas regiões não controladas. Na Zona Sul e no Centro da capital, contraste ainda maior: 68,3% de não brancos nas áreas sob domínio, contra 25,9% nas demais.

Políticas públicas

O Mapa 2025 sustenta que o domínio armado não é uma anomalia isolada, mas parte do modo de funcionamento e organização da metrópole. A estabilidade do CV e o poder econômico das milícias mostram que operações policiais têm alcance limitado quando não são acompanhadas de políticas contínuas de redução de desigualdades, regulação dos mercados urbanos e fortalecimento institucional.

Segundo os autores, enfrentar o problema exige mais do que ações emergenciais: requer políticas que ataquem simultaneamente renda, território, racismo estrutural, mercados urbanos e as próprias instituições encarregadas de garantir direitos — e que muitas vezes aprofundam, por omissão ou conivência, as desigualdades que sustentam o domínio armado.

Agência Brasil

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