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Brasil

Quase 85% da população preta afirma ter sofrido discriminação racial

Redação SeD
Última atualização: 20 de maio de 2025 13:43
Redação SeD
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De cada 100 pessoas pretas, 84 relatam já ter sofrido discriminação racial. A revelação faz parte de uma pesquisa apoiada pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), divulgada nesta terça-feira (20), que traz experiências de brasileiros com diversas formas de preconceito em atividades cotidianas.

Contents
Resultado Pesquisa indica que 72% das mulheres pretas sofreram mais de um tipo de preconceito – Foto: Joédson Alves/Arquivo/Agência Brasil“Desigualdade racial brutal”Desigualdade socialCaminhos

Para chegar aos dados, os pesquisadores aplicaram questionários de escala de discriminação cotidiana. Os entrevistados responderam perguntas como:

  • Sou tratado com menos gentileza que outras pessoas
  • Sou tratado com menos respeito que outras pessoas
  • Recebo um atendimento pior que outras pessoas em restaurantes e lojas
  • Agem como se tivessem medo de mim
  • Sou ameaçado ou assediado
  • Sou seguido em lojas

Para essas situações, as pessoas tinham que dizer se aconteceram frequentemente, sempre, raramente ou nunca.

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Resultado

A análise das respostas mostra que pouco mais da metade da população preta (51,2%) relata ser tratada com menos gentileza. Entre os pardos, esse patamar é de 44,9%. Já na população branca, 13,9%. O padrão se repete em outros critérios:

 

Pretos Pardos Brancos
Tratado com menos respeito 49,5% 32,1% 9,7%
Recebe atendimento pior 57% 28,6% 7,7%
Seguido em lojas 21,3% 8,5% 8,5%

O levantamento conduzido pelas organizações da sociedade civil Vital Strategies Brasil e Umane coletou informações, pela internet, de 2.458 pessoas entre agosto e setembro de 2024. O universo de entrevistados sofreu ponderações, de forma que representasse o perfil da população brasileira.

Quando anunciou a parceria, em agosto do ano passado, o Ministério da Igualdade Racial explicou que a pesquisa teria o objetivo de analisar dados públicos sobre saúde da população negra, com foco na promoção de políticas públicas direcionadas para combate ao racismo no sistema público de saúde.

A pesquisa contou com apoio técnico da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e do Instituto Devive. Tanto o Devive quanto as condutoras da pesquisa atuam na área da saúde pública.

 

Brasília (DF) 16/05/2024 - O 2º Aquilombar com o tema Ancestralizando o Futuro, o maior evento quilombola do país reuniu comunidades de todas as regiões e biomas do Brasil. Caravanas de diferentes estados participam do evento, organizado pela Coordenação Nacional de Articulação de Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). 
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
 Pesquisa indica que 72% das mulheres pretas sofreram mais de um tipo de preconceito – Foto: Joédson Alves/Arquivo/Agência Brasil

“Desigualdade racial brutal”

De acordo com o diretor da Vital Strategies Brasil, Pedro de Paula, os resultados reforçam a percepção da “brutal desigualdade racial que existe no Brasil”.

“A gente vê o abismo que existe na discriminação rotineira na vida das pessoas no Brasil. Tem um grupo que vive prioritariamente e rotineiramente com discriminação”, afirma ele, se referindo ao fato de 84% da população preta entrevistada ter afirmado que sofreu episódios de discriminação.

Segundo ele, a experiência de preconceitos tem repercussões sérias em vários aspectos da vida. “Isso impacta em saúde mental, em acesso a serviços, acesso ao emprego, em bem-estar, em autoestima, entre outras coisas”, enumera.

De acordo com a gerente de Investimento e Impacto Social da Umane, Evelyn Santos, “esse estudo foi a primeira aplicação da escala de discriminação cotidiana com abrangência nacional, feita no Brasil”.

Além de medir a existência de discriminação, os pesquisadores procuraram saber quais tipos de preconceitos os entrevistados vivenciaram.

Enquanto entre a população preta 84% afirmam que era relacionado à cor da pele, entre os brancos esse percentual foi de 8,3%. Para os pardos, a parcela ficou em 10,8%.

Outras formas de discriminação citadas foram orientação sexual, renda, religião, obesidade, entre outras.

O levantamento apurou ainda extratos que sofreram mais de um caso de discriminação. A pior situação é das mulheres pretas: 72% delas sofreram mais de um tipo de preconceito.

“Foi uma informação que chamou bastante a nossa atenção”, diz Evelyn Santos.

Em seguida figuram os homens pretos, com 62,1%. Na população branca, as proporções são de 30,5% para as mulheres e 52,9% para os homens.

Desigualdade social

Os dados que posicionam a população preta como a mais vulnerável em termos de sofrer discriminação se juntam a outras informações que retratam a desigualdade racial no país.

O Atlas da Violência, divulgado na semana passada, revela que ser uma pessoa negra no Brasil faz ter um risco 2,7 vezes maior de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra.

O Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou que pretos e pardos são 72,9% dos moradores de favelas.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, também do IBGE, assinalou que pretos (8,4%) e pardos (8%) têm taxa de desemprego superior à de brancos (5,6%).

Caminhos

De acordo com os responsáveis pelo estudo, os dados mostram onde devem ser concentrados esforços de combate à discriminação. Além disso, afirmam, a pesquisa mostra a necessidade de que políticas públicas para áreas como a saúde atentem-se também ao combate de discriminações.

“A gente sabe que tem muito mais violência obstétrica com mulheres negras do que com mulheres brancas. A gente sabe que tem muito menos acesso, a gente sabe que tem muito menos dispensação de analgesia e outros tipos de medicação para a população preta”, afirma Pedro de Paula.

>> Racismo afeta saúde desde o nascimento até a morte, diz especialista

“Qualquer grupo, qualquer organização, governo, sociedade civil, empresa que enderece temas da área social no Brasil, tem o compromisso, de lutar contra essa estrutura absolutamente desigual, do ponto de vista especialmente racial”, completa de Paula.

Agência Brasil

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