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Reconhecimento facial amplia público nos estádios e reforça segurança

Redação SeD
Última atualização: 3 de abril de 2026 09:55
Redação SeD
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A cultura de colecionar os ingressos adquiridos para ver o time do coração está com os dias contados. Há quase um ano, o acesso a estádios com capacidade para mais de 20 mil pessoas se dá, obrigatoriamente, por meio da biometria facial. Sem necessidade de apresentar um tíquete na entrada, o torcedor libera a catraca apenas pelo reconhecimento do rosto, cadastrado no momento da compra da entrada.

“O objetivo principal da biometria é fazer com que o ingresso seja personalizado. Com isso, você elimina a possibilidade de esse ingresso ficar circulando entre várias pessoas, de poder emprestar, trocar, enfim. Elimina a fraude também, porque você não tem como copiar a face”, descreveu Fernando Melchert, diretor de Tecnologia da Bepass, uma das empresas que desenvolvem o sistema no país.

A exigência da biometria nas arenas para mais de 20 mil torcedores consta no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, de 14 de junho de 2023. A legislação previu dois anos para adoção do sistema.

O Allianz Parque, em São Paulo, foi o primeiro estádio do mundo a ter a tecnologia em todos os acessos, ainda em 2023. Segundo a Bepass, que implantou o reconhecimento facial na arena do Palmeiras, a velocidade para entrada do público aumentou quase três vezes. Já o Verdão ampliou em pelo menos 30% o número de sócios-torcedores.

“Venho com minhas filhas. Para nós, é mais prático e rápido, pois compramos [o ingresso] on-line, fazemos a [biometria] facial uma vez e já libera”, contou o motoboy Marcos Antônio de Oliveira Saturnino, que conversou com a TV Brasil antes de cruzar a catraca da Arena Barueri para o clássico entre Palmeiras e Corinthians pelo Campeonato Brasileiro Feminino.

“Sem dúvida nenhuma, houve um aumento de famílias nos estádios, especialmente mulheres [32%] e crianças [26%] entre 2023 [antes da Lei Geral do Esporte] e 2025”, destacou Melchert.

O público geral nas arenas também cresceu. A média de torcedores presentes no Brasileirão Masculino do ano passado foi de 25.531 por jogo. Considerando apenas as 269 partidas após a biometria facial se tornar obrigatória, a média foi de 26.513 pessoas nos estádios. Cerca de 4% superior.

Há ainda clubes que instituíram o reconhecimento facial mesmo sem a capacidade mínima exigida pela lei. Na Vila Belmiro, do Santos, cabem cerca de 15 mil pessoas. Em 2024, o Peixe iniciou a operacionalização da entrada de torcedores via biometria. O Alvinegro estima uma economia de R$ 100 mil mensais (ou R$ 1,2 milhão anuais) apenas por não ter mais de confeccionar carteirinhas.

“Conseguimos cadastrar um número recorde de pessoas e oferecemos, ao mesmo tempo, mais condições de conforto e segurança para os torcedores que estejam vindo à Vila Belmiro. Nós temos a possibilidade, com o reconhecimento facial, de evitar questões inerentes a ingressos falsos e cambistas”, afirmou o presidente do Santos, Marcelo Teixeira.

O argumento referente à segurança se dá pela conexão entre os sistemas de biometria com o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Os dados são cruzados e, se o torcedor tiver alguma pendência jurídica, a Polícia é acionada. No clássico entre Santos e Corinthians, na Vila Belmiro, em 15 de março, pelo Brasileirão Masculino, três homens foram detidos. Um deles era procurado por roubo e os demais pelo não pagamento de pensão alimentícia.

Em nível nacional, um acordo de cooperação envolvendo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os ministérios do Esporte e da Justiça e Segurança Pública, em 2023, deu origem ao projeto “Estádio Seguro”. Em São Paulo, uma parceria entre os clubes e a Secretaria de Segurança Pública (SSP) integra os equipamentos a um sistema de monitoramento com câmeras em todo o estado. No programa chamado “Muralha Paulista”, mais de 280 foragidos foram identificados e detidos quando tentaram acessar as arenas.

“Como o ingresso é personalizado, a gente sabe quem é o comprador. Isso é enviado para a Secretaria de Segurança, que faz uma varredura para ver se há alguma pendência e retorna a informação para o controle de acesso e, obviamente, ao time de segurança que fica nas arenas. O objetivo é que a Polícia cumpra esse mandato no momento que essa pessoa frequentar o estádio”, descreveu Melchert.

O receio de para onde vão os dados coletados por meio da biometria, porém, existe. O relatório “Esporte, Dados e Direitos”, por exemplo, questiona a adoção da tecnologia nos estádios e seu banimento, afirmando ser a mesma posição de “instituições e organizações civis nacionais e internacionais”. Desenvolvida pelo “O Panóptico”, projeto do Centro de Estados de Segurança e Cidadania (CESeC), a análise chama atenção para “privacidade dos torcedores, vulnerabilização de crianças e adolescentes e o já bem conhecido racismo algorítmico”.

Um alerta é sobre a datificação, que consiste na transformação de ações do público em dados que possam ser monitorados, o que costuma ser uma informação relevante para grandes empresas. O relatório critica a vinculação da compra do ingresso à coleta da biometria, por considerar que as pessoas seriam impostas a essa datificação, inclusive menores, atingindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Outro trata de riscos de identificações equivocadas e prisões injustas. O estudo do CESeC lembra que, em 2024, um homem negro, torcedor do Confiança, foi retirado da Arena Batistão, em Aracaju, durante a final do Campeonato Sergipano. O cruzamento de dados a partir do sistema de reconhecimento facial o fez ser apontado como foragido, o que se provou errado. Ficou, porém, o constrangimento.

O relatório recorre, ainda, a um artigo de 2018, das pesquisadoras Joy Buolamwini e Timnit Gebru. O estudo indica que os algoritmos de biometria facial teriam acurácia variável conforme raça e gênero. Enquanto as taxas de erro na identificação de mulheres negras eram de 34,7%, elas não passavam de 0,8% com homens brancos.

Questionado sobre os argumentos contrários ao reconhecimento facial, Melchert, da Bepass, afirmou que o armazenamento e o tráfego da biometria captada ocorrem de forma vetorizada e que não é a foto do usuário que transita no sistema. Ele também reconheceu que nenhum sistema ainda é 100% livre de falhas, mas que o erro mais comum seria o não reconhecimento da face.

“Você tem um ajuste, que a gente chama de ajuste de acurácia, que é o grau de precisão entre a biometria usada como referência para aquela do momento da entrada. É muito difícil dar um falso positivo. Isso é um em um milhão”, defendeu o diretor de Tecnologia, que não crê em recuo quanto à ampliação do sistema, inclusive fora do ambiente esportivo.

“Shows e eventos, então, praticamente todos [terão acessos com biometria facial]. A gente vê uma grande movimentação de produtoras de eventos já indo atrás, porque são muitos os ganhos de segurança, de fluidez, de acabar com o cambismo, entendeu. Isso gera ganho financeiro, maior adesão ao produto. Diria que já é uma realidade”, concluiu.

Agência Brasil

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